- Ela partiu, partiu e nunca mais voltou. Se eu soubesse onde ela está.
Tocava a voz negra de Tim Maia em alto e bom som, isso antes de o despertador começar a trabalhar e me passar o bastão do fardo da vida, me acordando de um sonho que trazia um sentimento de perda e angustia que atropelava o meu sossego.
Chegando a doer aqui dentro, a cena vivida ilustrava exatamente a letra da música. Voltei no tempo para viver o presente e em meio a muitas crianças em uma sala de aula, só eu ouvia aquilo tocar. Era trilha sonora de um drama que eu era o narrador e personagem.
Sentei na beira da cama e fiquei sentindo a angustia do sonho. Pendurado a minha frente um falso quadro do Van Gogh que não sei ao certo o seu significado, a minha volta os rapazes de Liverpool se apresentando no início da carreira para uma plateia histérica que eu poderia ouvir os gritos só pela imagem. Mesmo assim havia um silêncio que nasceu da tristeza sem motivos reais, ficava ali logo cedo, sentado sem pensar em nada. Ou melhor, pensava no que havia acabado de viver, mesmo sendo estranho, e às vezes ruim, um sonho vai do trágico ao engraçado e esquisito.
Dessa vez o lúdico criado me surpreendeu pelas cenas, por fazer um paralelo à realidade com sentimentos intensos já vividos. Confusão.
Talvez fosse as 600mg de dipirona sódica, 60mg de mucato de isometepteno e 60 mg de cafeína que surtiram efeito, me derrubando num sono profundo. Foi de uma ajuda fácil e acessível antes das poucas horas de sono. Pela falta de muitas, tenho que fazer de poucas, intensas.
Mau humor. O sonho me fez esquecer, mas lembrei. Na noite anterior havia pensado demais até que o sono escondido na couraça da vida encontrasse o relaxante muscular. Nesse pensar, surgiu certa insônia assim que encostei a cabeça no travesseiro, atrapalhando minhas ditas poucas horas de descanso. Bateu um desânimo ao lembrar a causa desse descontentamento. Quando lembrei disso novamente, por pouco tempo foi uma manhã que perdi o espírito de compreender o ser humano. Como se pode formar pessoas diferentes do mesmo sangue.
Meu pai trabalhou durante a madrugada passada e não aguentou, dormiu no final da tarde, no sofá da sala. Herdei o sono curto e profundo do velho. Nisso ele esbravejava seu ronco quando recebe uma ligação do único amigo que conserva com seus sessenta e dois anos de idade – Minha mãe acabou de morrer – dizia Cláudio.
Conheço esse cara, um pouco mais novo que meu pai. Tão ativo quanto, muito falante e de fácil risada. Liga em casa para fazer piadas de política com meu pai. De boa dicção que me surpreende com a velocidade que joga e brinca com as palavras. Aposentou-se cedo, burlando o sistema previdenciário brasileiro, conseguindo enganar a perícia do INSS. Um bom dinheiro por mês. Alegava aos médicos problemas na coluna, após ter tido um grave acidente de carro. Funcionou.
Em uma bela casa, vivia com a mãe e mais dois irmãos também solteiros. Uma das casas mais legais que já entrei, e nem era luxuosa e de arquitetura moderna. Mas ao entrar naquele casarão ele provava que aliado ao bom gosto, peças de antiquário podem ser úteis em uma decoração. Os quadros, vasos com desenhos orientais, peças religiosas trazidas do Vaticano, móveis rústicos, assoalho de madeira que ao andar me lembrava das minhas viagens de infância a Minas Gerais. Sem contar o jardim japonês com peixes gordos e coloridos, ao lado de mesinhas brancas que eram usadas sem falha todo meio de tarde para o chá. Hábito esse que virou ali um costume nada típico em nosso país tropical.
Assim que fiquei sabendo que meu pai não foi atrás do amigo para uma pronta ajuda, desanimei. E ainda voltou a cochilar e depois a fazer seus afazeres do dia a dia. Não gostei. Com toda certeza eu faria diferente. Depois fiquei sabendo que a ajuda foi oferecida, mas o Cláudio não queria. Cada um se comporta de um jeito. Há os que querem pessoas ao redor, e os que se afastam e fazem disso uma proteção. Até entendo. Tudo bem.
Saí de casa já aprontando uma música para que os passos se tornem mais fáceis no longo caminho de cada manhã. Trágico, mas extraordinário e previsível em meu playlist, já mando Construção de Chico Buarque tocar logo de cara a faixa nome do álbum. Penso na evolução da música, e no “e se acabou no chão feito um pacote flácido” para depois tímido e bêbado. Penso no ritmo que se remete a uma construção e da realidade que se comprova no dia de várias pessoas. O engraçado que gosto dessa música de um modo diferente quando escuto de manhã e a noite depois do trabalho. Principalmente quando há caminhos tortos depois do expediente. Bebo e soluço como se fosse realmente um náufrago e danço e gargalho ouvindo música. Sem conseguir fugir do trocadilho, todo esse ritmo me faz construir um caminho mais rápido pela manhã e fica melhor quando a linda Cordão amaceia a tensão com “Ninguém vai me segurar, ninguém há de me fechar, as portas do coração”, diferente da anterior essa já me identifico sem diferenças quanto a dia e noite.
E de tantas vezes assim, sigo o mesmo caminho todos os dias. Vira rotina. Chego a dar bom dia ao cão que fica sentadinho na porta de uma casa. Esperando alguém ou protegendo o seu espaço? Eu não sei, mas movimentando a cabeça ele vai acompanhando o meu passar. Sei que o dono deste cão sumiu. Pelo menos eu estou dizendo isso por não vê-lo mais. Era um senhor muito simpático, moreno de sol e de olhos claros. Sempre o cumprimentava. Talvez ele tenha morrido. Talvez ele tenha voltado há vida no corpo do cachorro e continua me cumprimentando e respondendo o meu bom dia.
Esperar o ônibus no mesmo ponto e horário é quase um djavu corriqueiro. O gordinho branquinho que todo desconjuntado com a camisa colocada pra dentro da calça pela avó, sempre vira a esquina em direção ao ponto, sinalizando desesperado para parar o ônibus; a senhora que começou a depositar fundo de garantia tarde demais e ainda está trabalhando, quando todas as amigas estão aposentadas e vão cedo à hidroginástica, enquanto ela está vestindo as calças da casa e trabalha para pelo menos sobrar um dinheiro para o cigarrinho e o bingo. E assim as mesmas pessoas saindo de casa no horário de todo santo dia e os carros que passam, imagino que também sejam os mesmos. Sento na frente de uma floricultura e espero uns dez, quinze minutos até o bendito chegar. Acendo um cigarro e chupo uma bala, uma e outra abelha vai aparecendo atrás do doce e sopro nelas a fumaça, me dou melhor nessa briga. Se tudo na vida fosse assim, um soprar no problema que ele vai embora. As abelhas fogem da minha fumaça e se juntam a outras quando o dono da floricultura vai chegando, abrindo mais uma vez as portas de seu estabelecimento e espertas já batem cabeça para entrar e sugar mais um pouco do néctar das flores.
As abelhas já se foram e encontraram o que é de direito dado pela natureza, mas logo vejo a garota que vem sugar minha paciência. Essa é do tipo que um soprar de fumaça não surte efeito para espanto. Vem e vira a esquina de salto. Numa manhã de silêncio há essa hora já é possível ouvir o bater do salto a metros. Reconheço. Ela vem e sem dar bom dia pergunta se esta bonita. Já explico a você que mulher burra não me atrai e ela em outras esperas de ônibus já havia me deixado inconformado em assuntos aleatórios, uma parcialidade que me deixava realmente bravo logo cedo. Agora eu procurava pouco assunto, nada específico sobre literatura, música, economia e muito menos política. E drogas? Quando tocamos nesse assunto numa dessas idas ela já chutou a minha paciência metendo o termo “fumando cocaína”. – Não – respondo a pergunta sobre a sua roupa sem a vontade de querer agradar. Ela já foi se explicando e tudo mais como se devesse. O ônibus chegou vazio dando a oportunidade de sentarmos juntos. Ela que já foi um desejo antigo, hoje, depois de descobrir seu intelecto irritante que atira palavras sem pensar, não é mais aquilo tudo. Começo o caminho já limitando os meus assuntos e ainda mais as respostas quando houvesse alguma pergunta a minha pessoa. Sabia que se desse corda eu perderia meu cochilo ou a leitura do meu livro. Pareço um tanto homossexual falando isso de um belo par de peitos, mas quando é uma pessoa que defende o aumento salarial dos políticos com unhas e dentes, fala que ser vegetariano é idiotice, toma sucrilhos de manhã e esquece de escovar os dentes, principalmente quando se usa aparelho. O meu lado é compreensível. Não dando muita atenção ela dorme e eu vou lendo e ouvindo música. O banco é flexível e ela até se deita. Melhor assim, dormiu. Fico entretido no livro Budapeste de Chico Buarque, me disperso da leitura quando reparo nas suas coxas, ao deitar sua saia passou a um bom tanto acima dos joelhos e ficou mais interessante. Ela ficava ali, muito melhor em silêncio. Dormindo. Calada. Só assim para atrair e não criar algum tipo de repudio. Mas não durou muito, no final da Rodovia Anchieta ela acordou e começou a falar, disparou vantagens de viagens já feitas pelo mundo, não deixando de puxar um assunto que levou ao namorado fortão e rico. Deixava bem claro que o namorado era um cara muito largo, forte e ciumento. Eu me mantinha praticamente em silêncio, só ouvindo asneiras elitistas bernardenses, enquanto ela jogava merda no ventilador para todos do ônibus ouvirem a sua rica história de vida. Eu imaginava que todos que estavam à volta escutando as vantagens da garota se perguntavam – Já que você é assim, então porque está num ônibus? E por favor, fale mais baixo caralho. Quero dormir – diriam juntos comigo por pensamento.
Sempre gostei de andar, nada muito rápido. Gosto do ritmo mais tranquilo. Vejo esse aspecto como um baiano que não entende porque os paulistas correm uma escada rolante se ela te leva até lá encima. Isso em mim, fica para as ruas, pois minha natureza é daqui e fico com vontade de dar um chute nas costas das pessoas que não percebem que o lado esquerdo da escada serve para fluir o trânsito. Há aqueles que não estão nem aí e ficam até debruçados enquanto existem pessoas com pressa enfileirando afim de fazer o mesmo que eu, chutar.
A estação de metrô fica bem próxima do prédio onde trabalho. Desço no Paraíso e gosto daquele lugar. Apesar da distância é fluxo de uma diversidade de pessoas bem mais interessantes que o ABC. É uma bagunça que gosto. São Paulo, eu te amo.
Tenho maiores responsabilidades que antes – começaria eu dizendo sobre o motivo que encontro para fumar logo cedo - Preciso de um escape para aliviar a minha tensão – diria para minha consciência ao sacar o maço. Cheguei a me render as desculpas e comecei a tragar e andar. No caminho chuto um maço de Marlboro Light amassado com o rótulo virado para baixo e a parte de trás alterada dizia - Cigarrillos trae dolor, enfermidad y muerte sufrida. Achei estranho esse verso colado, mais por ver que alguém se preocupou em lembrar disso. É uma lembrança menos sutil que o normal. Pode ter sido a esposa que cola no maço do marido ou mesmo no dela. A consciência é nossa amiga até certo ponto, depois temos que ter muletas para lembrá-la de algumas coisas.
Não era de se assustar, afinal, eu estava trabalhando ao lado do Hospital do Coração. Imagino que muitas pessoas estão com o fim da vida bem mais perto em algum quarto daquele prédio devido aos cigarrillos. O cúmulo é quando me pego fumando na calçada deste Hospital. É quase a mesma coisa que tomar umas cervejas na calçada do AA.
Sétimo andar. Sala 117. Hoje fez dois meses que estou aqui. Minhas costas já doem de ficar deitada. Tenho poucos momentos no dia que posso levantar, ainda com auxílio da enfermeira ou de um visitante. Logo eu que gosto tanto de me olhar no espelho, passar maquiagem e arrumar o cabelo. Estou ficando mais fraca, mas antes estar aqui para tentar ter mais uma chance a mais de viver e continuar me vendo no espelho, do que já ter ido para outro mundo. Além de não ver mais o meu reflexo, irei entristecer as pessoas que gosto. Não sei mais por onde correr, por isso fico aqui e aceito qualquer opinião dos médicos e uma boa conversa. Meu filho mesmo sendo muito ocupado saí do trabalho e passa aqui direto. Lindo, ele vem de social completo e as enfermeiras ficam de olho nele. Fui eu que fiz, falo também para elas que ele é meu, mas se quiserem, passo o telefone. Ainda quero vê-lo casado e me dando um neto. Mas a beleza estraga um pouco, por ter muitas mulheres a sua volta, não vive com uma que preste. Tem a péssima mania de escolher mulheres desequilibradas que não querem saber de casar e constituir família.
Deu-me muito trabalho, mas agora é a vez dele cuidar de mim. Quando ele chega, me ajuda a levantar e ir a janela. Ao menos daqui tenho uma bela vista da Avenida Paulista. Sou boba em achar que o melhor momento do dia é olhar as luzes da cidade, toda iluminada. Esses dias um pássaro tentou subir aqui em minha janela e começou a bicar tentando entrar, fiz de tudo para que isso não acontecesse, acenei para que ele tomasse outra direção. Mal sabe ele que tem em suas asas o poder da liberdade. Aprendi que é quando estamos no escuro que percebemos as coisas boas da vida. Espero sair daqui depois da próxima operação. Estou cansada desse teto e paredes brancas. Na comida eles até se esforçam, mas já enjoei.
Décimo segundo andar. Daqui da Redação tenho uma boa vista do Hospital do Coração. São dois conjuntos de prédios. Acredito que um seja só enfermaria. Vejo todas as janelas mas só percebo o movimento de um quarto. A janela, como os óculos do meu pai, escurece quando bate raios de sol, mas clareia e fica transparente depois do final do dia. Desse modo só à noite que consigo ver alguma coisa do ângulo que fica a minha janela. Vejo uma mulher num quarto, reparo que recebe visita de um cara todos os dias e que vai tomar um ar na janela. Mas faz um tempo que não reparo mais ninguém por lá. Espero que tenha dado tudo certo e que ela se reflita por aí.