terça-feira, 13 de março de 2012

"não sou a mesma sem você  e as suas ideias de casar
sem os sonhos
sem as músicas boas
sem as noitadas bêbados no motel
sem as noites no sofá com o cobertor vermelho"

 

Eu também não sou o mesmo sem você. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Passado é ficção

sinto o uísque gelado
descendo em minha barriga
é a primeira golada de
uma noite sozinho
com
poucas notas no bolso

lembrei que tinha essa garrafa
perdida
sobrando embaixo do balcão

dentro dela um líquido salvador
e abençoado
que vive
me dá vida e arranca sobriedade dentro desse peito

que quando anda por essas ruas se reluta
luta para não olhar o céu e sentir que por ali viveu
risadas, gargalhadas 
e perdeu
o fôlego em noites que
tudo fazia sentido

num amor louco
abraçava e dizia
que tudo se repetiria

transpirava e dava força
sussurrando, sentindo na pele

sentindo o sabor doce dentro da alma
e pedia mais

até acabar aqui

mais uma garrafa, sr?

terça-feira, 25 de outubro de 2011

No gatilho

Mais uma conta estará vencendo hoje. O mês vai passando e não fiz as economias necessárias. Serão juros, sobre juros e isso tornará uma bola de neve que irá me atropelar de tal maneira. Antes de sentir meus ossos sendo esmagados, esse tormento levará tempo. Durante todos os almoços, enquanto eu estiver enfiando a comida mais barata por goela abaixo, no pior prato feito da cidade, alguma desgraça ligará me procurando para me lembrar de que tenho dívidas e mais dívidas. Como se fosse preciso. Queria eu ser esmagado por uma bola de neve de verdade numas férias nos Andes, queria eu ser procurado loucamente por uma voz doce, queria eu não ter financiado esse carro de segunda mão, me traz mais prejuízo que se tivesse tido um filho. Mas estou aqui, num trânsito quilométrico. Hora do rush, suando, enforcado por esse traje social.
Lembro-me de vestir roupa social no dia do meu primeiro emprego. Camisa bem passada, cinto e o sapato lustrado até refletir meu sorriso. Hoje só vejo o reflexo de um cara sem plano médico para cuidar das dores nas costas.

Não paro de ouvir minha consciência nadando em problemas a braçadas. Busco a estação Kiss FM. Aumento o volume. Só os clássicos, assim não será necessário digerir nada novo.

Estou cansado, parado atrás de um caminhão que aponta gases fedorentos e poluidores em minha direção. Meu nariz entupido, garganta arranhando a cada engolida de saliva. Minhas vias respiratórias não aguentam. Fico no dilema - abrir a janela e deixar entrar aquela fumaça desgraçada ou fechar os vidros e morrer de calor.

Queria nessas horas acreditar em algo que fosse salvar a minha alma, me tirar desse congestionamento e me levar para a minha casa. Nada mais que isso. Não precisaria de muita reza. Mas a fé se perde num final de tarde. Morria aos poucos como todos que por ali estavam. Trancado no carro, sem ar-condicionado. Morrer de calor não seria o meu fim. Decidi abrir a janela. Risquei um fósforo e acendi um cigarro amassado. Já que estava no meio da fumaça, tratei de cooperar.

Nó da gravata afrouxada e braço para fora. Batendo as cinzas freneticamente. Por isso que os psiquiatras nos entopem de remédios. Ali eu fazia o meu melhor. Fingir soltar aquele stress nuns tragos. Até afrouxei o relógio. Tragadas e mais e mais tragadas.

Ilhado num final de tarde. Nessa inércia, um malandro aparece. Não tenho por onde correr e sou mais um. Assalto. Fico em choque e só ouço a voz me acelerando – Tira essa porra de relógio e me passa, vai! Seu merda!

Eu era um merda. Fiquei olhando pros olhos dele e para a arma. Olhei o relógio e o tempo estava parado. Ponteiros finos sincronizavam-se cada milésimo. Enquanto o marginal gritava com tanta força que cuspia em minha cara.

Coloquei o dedo no botão do vidro e fui levantando, fechando. Ele gritava. Ouvi um estalo e um som agudo e ensurdecedor. Continuei a fechar. Ouvi mais um tiro e meu telefone tocou até cair na caixa postal – Banco Panamericano, boa noite. Aqui é a Carla da Central de Cobrança, peço para que entre em contato no telefone...

Eu troquei as provas

Tranquei a porta da minha sala, comuniquei para que a Marta, minha secretária, não deixasse ninguém subir. Tomei um calmante, um excitante e um bocado de gin – cantarolei Chico Buarque. Meu principal ídolo de quando entrei para a política. Espelhava-me nesse cara, com seus gritos de protesto contra os males da política brasileira. E, é claro, gostava do seu jeito boêmio. Servi um bocado de uísque para afundar os problemas. Com medo do que viria, abri um pouco à persiana e avistei a multidão de repórteres que faziam plantão na frente do prédio. Uma multidão deles. Repórteres em sua caça são piores que mulher correndo atrás de pensão. Vão até as últimas consequências, madrugam, ligam e te espionam. Arrancam o teu coro, penduram que nem linguiça defumada em cima do fogão a lenha. Só para te humilhar. Virei uma talagada da bebida pela goela abaixo. Escorei as costas na parede e fui escorregando até o chão. Fiz drama, amaldiçoei o dia que entrei para essa carreira em que fui subindo de cargo que nem pau de tarado quando vê uma bundinha.

Tirei muito proveito do meu “jeitão” pra falar com o povo. Empenhado administrei muito bem a verdade, depois, administrei a mentira por tempo integral. A última foi o Novo Plano do governo. Muitos trâmites e interesses. Poderia ter parado na primeira fazenda, mas a minha vida era essa. Não se pode mudar o seu caráter quando se tem mais de sessenta anos e “nego” querendo botar uma maleta de dinheiro em cima da sua mesa. Aceitei ajudar os colegas na aprovação de projetos do Novo Plano, em troca, um bom dinheiro para um bom homem. Sabe como que é, muita gente envolvida – uma hora a casa cai. Se tivesse pensado assim, não teria chegado aqui. Quem pensa assim aqui em Brasília, morre de fome. Não basta coragem e honestidade.

- Senhor, o Rafael Stefano do Correio Brasiliense, está aqui na recepção. Mando subir?

Um escândalo assim, não tem prédio de luxo que consiga parar os repórteres. Esse maldito deve ter entrado fantasiado de entregador de pizza, carteiro ou o diabo. Perguntei para Marta se o viadinho estava acompanhado. Marta disse que não. Tomei mais um gole e me levantei.

Rafael Stefano bateu a minha porta. Entrou. Um metro e setenta e um punhado de barba na cara. Parecia comigo no começo da carreira, baixinho, mas querendo ser grande. Já tinha lido suas matérias em algum jornal por aí. Garoto novo, esperto. Tinha gravações daquela “ajudinha” que dei pra aprovação da escolha da empreiteira americana. Conversamos por duas horas. Dei uma entrevista. Sabe como que é, sou o Velho Lobo do Mar. Nada melhor que uma boa conversa. Não foi a primeira vez, já passei por crises assim. Macaco Velho, vi a carência do rapaz - jornalista, salário baixo, molambento. Paguei um terno novo e uma gorjeta para ele aparar aquela barba.

Dispensei-o e dormi na sala. Naquela noite, se saísse dali seria pego para capar igual a um porco. Nada como um dia após o outro. Liguei a televisão e o meu depoimento estava sendo lançado por toda a mídia pelo meu amigo Stefano. De barba feita e terno italiano. O rapaz dava os nomes aos verdadeiros ladrões desse senado. Logo o Conselho de Ética anunciava - Processo arquivado.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Pausa para o café

Estava lá em uma sala de um apartamento qualquer em Paris. Deliciando-se com o cú amanteigado. A garota muito bonita dos cabelos ondulados, maluca o bastante para não ignorar os pedidos, passou o dedo na manteiga do café da manhã e enfiou repetidas vezes enquanto Marlon Brando pedia mais e mais.

Esse cara seria mais tarde o Poderoso Chefão, mas naquela cena, naquela manhã em um apartamento qualquer em Paris, era O Poderoso Chefão do Cú Amanteigado. Contei para minha namorada da cena deste filme, O Último Tango em Paris, contei por mensagem no facebook e mesmo assim ela percebeu a minha tristeza e indignação de ver o fino galã e imortalizado Poderoso Chefão se delirando numa situação desta.

Dias depois estou na Rua Augusta, no famoso coffee break do mundo corporativo, fumando um cigarro após tomar meu café e comer meu pão de queijo que tanto gosto. Ainda mais gostoso naquela lanchonete barata, que de barata há muitas, aquela que à noite vira boteco e faz a alegria da boemia da cidade. Na tranquilidade do momento, observando o vai-e-vem das pessoas, sinto a minha perna vibrar pelo toque da mensagem do celular.

Marlon Brando do Cú Amanteigado - confiro e não respondo.

Mensagem da minha querida namorada, Amanda, que me fez lembrar aquela cena do início.
Queimo o fim daquilo que resta em meu cigarro. Apago-o em um dos novos porta-bitucas que instalaram nas calçadas após a Lei Antifumo. O cigarro se apaga num alumínio de bombom. Saio da calçada com um pouco de pressa. Empurro a porta de vidro até voltar a sala de aula da Escola São Paulo. A volta do café me faz conferir os bolsos, conferir se esqueci o celular em algum lugar (não seria má ideia). Fico finalmente acomodado e me dou conta que sou o último a chegar. Pareciam que todos me esperavam. Sinto a sensação de inconveniente. Logo passa.

Naquele pequeno auditório percebo o quão é apertado o lugar. Ainda mais ao chegar o momento que todas as bexigas começam a sentir os líquidos do intervalo. A sala está cheia. Cheia de meninas com bexigas apertadas. Esforçam-se para passar suas bundas entre as fileiras. E penso:

Por que o Marlon Brando fez aquilo?

domingo, 4 de setembro de 2011

Oi,

toda vez,
inclusive a próxima,
ao te encontrar
pensarei
quem é você?

quando souber,
o porquê disso
não me avise

de qualquer forma
olhamos
um para o outro
sabendo muito
sabendo o caminho
para sorrir

só quero saber
o porquê
mas isso não me incomoda
confunde
e excita
sempre é bom
encontrar alguém
diferente assim
mesmo que
seja
a mesma.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Man

Fazemos o nosso amor de forma que relaxa a mente, o peito, dá sono, dá vontade de colinho, de viajar para longe, de ter filhos, de dormir, de viver juntos para sempre.

Só a gente sabe

Na minha frente uma caneca de café
com sua foto.
Você sorrindo. Alegre.
Eu tomando minha cerveja a goladas e ignorando a lente.
Posso olhar agora e sorrir igual.
Ficar feliz em saber que posso ter
um pouco de ti.
Sentir e confiar no que sinto aqui dentro.
Tentei escondê-lo. Confesso.
Mas quando você me olha.
Rouba o meu sorriso e leva o meu assunto.
Me deixa trêmulo, excitado, confuso.
Me faz bem.
Somos música, temos a mesma sintonia.
Encanta.
Sabemos mais que ninguém.
Que cansamos da fuga.
Que já não vemos motivos.
Pra um amor de tantas rugas.
Não ter o seu lugar.
Canto.
Sempre, com você.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Dois goles

A poesia ficou suja. Gosto do estrago. É belo ter um olhar que veja o que está por trás da cortina. Encontrar o novo e diferente do já vivido a cada passo. Ter a consciência de que aqui vamos para o céu, com a mesma facilidade que vamos para o inferno. Não forçar nada é o que mais tento fazer, talvez seja o segredo. Pois esse mundo já gira e muda nossos caminhos numa beleza, e ao mesmo tempo numa brutalidade muito grande. Todos sorriem e se doem um dia. É só tentar e tentar que as sensações serão vividas. Sendo verdadeiro é melhor, sempre. Por mais que a dor do verdadeiro agonize, é questão de querer uma consciência leve e livre para ter dias que não te faça um traste. Não adianta esconder. Ser autêntico é virtude que poucos tem coragem de manter.

Mais uma vez sozinho por aí. Vejo arte no conviver discutindo comigo mesmo, desde entrar em conflito com os meus problemas até trazer à tona a angústia do não saber o que está por vir. Discuto e balbucio algumas palavras ao vento, para entender no final que assim só se confunde tudo e o pensar só dobra e aumenta o tormento. E o melhor de tudo isso é saber que nada muda de verdade com a força de um pensamento. Não há o que fazer pensando. Pelo menos nesse instante, pelo menos nesse pensar. Assim é engraçado viver, saber que se deve relaxar, tirar alguns pesos e cobranças, que no final o mundo continua sem mim. Então vivo. Para um dia dar risada do que dói hoje.

Masp. Vinho. Sem caminho. Só o prazer de beber e observar as pessoas já são ganhos nessa noite. Quem me vê pensa que estou com alguma certeza, que vou encontrar alguém. Mas estou longe disso. Vou até a parte de trás do Masp. Sento nos bancos e o pessoal ao lado não gosta muito. Pensa que vou pedir uma tragada daquele bansa. Levanto ao sentir algum incômodo causado. Ou talvez seja coisa da minha cabeça. Nunca gostei de incomodar. Prefiro passar e sair despercebido a sentir repulsos de qualquer pessoa. Nessa vou até o meio do vão. Observo ao meu redor. Risadas e fumaça por todos os lados. Encontro ali, parada, com olhar confuso, uma semelhança de momento numa garota. Impressiono-me com seus ares de atriz. Fazendo o seu drama em lágrimas. Eu era o único da plateia a prestar atenção. Num palco de luzes apagadas pelo céu poluído de São Paulo, onde não há ensaio e que os batimentos são verdadeiros. A Loira, com uma camiseta legal, dividia alguma angustia com uma garrafa de vinho tão barata quanto a minha. Fico sem reação por um tempo que não calculei. Olho como se fosse possível adivinhar algo da vida dela e acompanho suas talagadas à distância.

Não faço nada além de entornar minha garrafa ao mesmo tempo que ela. Sobriedade já não existe entre nós.

sábado, 11 de junho de 2011

Que flutua por aí

Tanta coisa para pensar, mesmo que a maioria seja eco repetido. Há pouco tempo cheguei a achar que consegui controlar, mas toda a sabedoria que encontrei não foi o suficiente. Quando deveriam se organizar, tudo ainda se encontra e se perde num só nó. Nada mais posso fazer. A única coisa ao meu alcance são alguns cigarros meio amassados, que contra ao vento, acendo com dificuldade com o isqueiro que simplesmente surgiu em meu bolso e vou tragando e batendo o dedo no corpo dele freneticamente. Sem preguiça. Sem parar. Andando contra a noite fria de São Paulo. Emendando a brasa da bituca em outro cigarro inteiro. Emendando um pensamento em outro pensamento. E minha alma não consegue sair do mesmo lugar. A única certeza é que o vício é mesmo tudo que você deixou. Só consigo fazer com que você, nesse péssimo hábito, vire fumaça em meu peito e solto como se tudo virasse nada em um só ato. Paro na esquina que já cruzamos bêbados e alegres. Lembro. Não adianta. É idiotice não querer pensar. Olho para traz e o máximo que consigo é que cada baforada só se torne um foda-se repentino. Um grito que ninguém escuta. O sentir que nada mais adianta.

Todas as buzinas, as conversas, as vozes, as sirenes não me incomodam, digo até que é pouco, queria mais. É como se fosse uma doença, querer mais. Nessas aprendo a não limitar qualquer desejo. A ter um otimismo sadio, que até tenta encontrar uma certeza em alguma coisa ruim que poderia ser pior. Na lembrança, encontro com facilidade uma saudade das coisas boas. Disseram-me que preciso relutar contra isso, que não existe mais nada aonde já aconteceu. Mas sou teimoso, dou um breve sorriso e contenho algo mais, acho graça da beleza daquelas noites. Esforço para acreditar que há um lugar melhor depois daqui. Fico curioso ao tentar imaginar o que está por vir e solto para a vida a risada que continha. Só quero que alguma coisa aconteça. Sinto que tudo que aconteceu é somente o custo da busca pela gargalhada perfeita que o Velho Safado nos fala. As perdas já eram avisadas.

Digo que não! Para me proteger, mas é a abstinência daquele corpo, daquela voz. Até me espanto e fico surpreso quando consigo disfarçar esse sentimento, esconder essa sensação e sentir outras vibrações. Disfarçar o que não posso controlar é inútil. Quem sabe hoje as coisas mudam – quero, mas não consigo. Mais fácil é pensar em desistir e até atravesso a rua com mais lentidão, com as orelhas tapadas pelo fone de ouvido tocando aquela sex music, sem ligar por passar a um triz de um carro e outro.

Paraíso, Brigadeiro, Trianon-Masp. As entradas das estações do metrô vão passando e sinto preguiça em descer as escadas e pegar o caminho de volta para casa. Finjo que não vejo. Insisto na sensação de que algo me espera. A noite é fria, mas nada que o passar de três estações para esquentar – um drink, por favor! Compro uma garrafa de vinho dos mais baratos que encontrei na geladeira daquele boteco sujo. Rompo o lacre no primeiro passo ao pagá-lo. Viro em goles largos, como se o mundo fosse acabar. É só o tempo de respirar que entre um intervalo e outro vou para mais um gole. Saúdo a vida como um náufrago, celebro o nada e me satisfaço com aquele vinho vagabundo que tanto gosto. É barato, não vale muito, mas é doce e suave. Sou eu engarrafado. Com um rótulo que se desfazia facilmente, mas agora melhorou, é de plástico. Agora os fabricantes pensam mais em nós. Bêbados que querem a embriaguez com poucos trocados. Quando menos o meu diafragma acaba de contrair, entre um respiro e outro, viro mais um gole. Afogo agonia e salvo a felicidade. Tudo isso só me dá a estranha esperança de alguma coisa. Contrario o pensamento que não há propósito nenhum para estar indo. Existe o propósito isolado de viver. A simplicidade de sentir. Descubro que sou um condenado pelo vício de sentir – É a única razão por estar aqui. Emendo nicotina entre os dedos. E canto.

domingo, 24 de abril de 2011

Esses dias

- Ela partiu, partiu e nunca mais voltou. Se eu soubesse onde ela está.
Tocava a voz negra de Tim Maia em alto e bom som, isso antes de o despertador começar a trabalhar e me passar o bastão do fardo da vida, me acordando de um sonho que trazia um sentimento de perda e angustia que atropelava o meu sossego.

Chegando a doer aqui dentro, a cena vivida ilustrava exatamente a letra da música. Voltei no tempo para viver o presente e em meio a muitas crianças em uma sala de aula, só eu ouvia aquilo tocar. Era trilha sonora de um drama que eu era o narrador e personagem.

Sentei na beira da cama e fiquei sentindo a angustia do sonho. Pendurado a minha frente um falso quadro do Van Gogh que não sei ao certo o seu significado, a minha volta os rapazes de Liverpool se apresentando no início da carreira para uma plateia histérica que eu poderia ouvir os gritos só pela imagem. Mesmo assim havia um silêncio que nasceu da tristeza sem motivos reais, ficava ali logo cedo, sentado sem pensar em nada. Ou melhor, pensava no que havia acabado de viver, mesmo sendo estranho, e às vezes ruim, um sonho vai do trágico ao engraçado e esquisito.

Dessa vez o lúdico criado me surpreendeu pelas cenas, por fazer um paralelo à realidade com sentimentos intensos já vividos. Confusão.

Talvez fosse as 600mg de dipirona sódica, 60mg de mucato de isometepteno e 60 mg de cafeína que surtiram efeito, me derrubando num sono profundo. Foi de uma ajuda fácil e acessível antes das poucas horas de sono. Pela falta de muitas, tenho que fazer de poucas, intensas.

Mau humor. O sonho me fez esquecer, mas lembrei. Na noite anterior havia pensado demais até que o sono escondido na couraça da vida encontrasse o relaxante muscular. Nesse pensar, surgiu certa insônia assim que encostei a cabeça no travesseiro, atrapalhando minhas ditas poucas horas de descanso. Bateu um desânimo ao lembrar a causa desse descontentamento. Quando lembrei disso novamente, por pouco tempo foi uma manhã que perdi o espírito de compreender o ser humano. Como se pode formar pessoas diferentes do mesmo sangue.

Meu pai trabalhou durante a madrugada passada e não aguentou, dormiu no final da tarde, no sofá da sala. Herdei o sono curto e profundo do velho. Nisso ele esbravejava seu ronco quando recebe uma ligação do único amigo que conserva com seus sessenta e dois anos de idade – Minha mãe acabou de morrer – dizia Cláudio.

Conheço esse cara, um pouco mais novo que meu pai. Tão ativo quanto, muito falante e de fácil risada. Liga em casa para fazer piadas de política com meu pai. De boa dicção que me surpreende com a velocidade que joga e brinca com as palavras. Aposentou-se cedo, burlando o sistema previdenciário brasileiro, conseguindo enganar a perícia do INSS. Um bom dinheiro por mês. Alegava aos médicos problemas na coluna, após ter tido um grave acidente de carro. Funcionou.

Em uma bela casa, vivia com a mãe e mais dois irmãos também solteiros. Uma das casas mais legais que já entrei, e nem era luxuosa e de arquitetura moderna. Mas ao entrar naquele casarão ele provava que aliado ao bom gosto, peças de antiquário podem ser úteis em uma decoração. Os quadros, vasos com desenhos orientais, peças religiosas trazidas do Vaticano, móveis rústicos, assoalho de madeira que ao andar me lembrava das minhas viagens de infância a Minas Gerais. Sem contar o jardim japonês com peixes gordos e coloridos, ao lado de mesinhas brancas que eram usadas sem falha todo meio de tarde para o chá. Hábito esse que virou ali um costume nada típico em nosso país tropical.

Assim que fiquei sabendo que meu pai não foi atrás do amigo para uma pronta ajuda, desanimei. E ainda voltou a cochilar e depois a fazer seus afazeres do dia a dia. Não gostei. Com toda certeza eu faria diferente. Depois fiquei sabendo que a ajuda foi oferecida, mas o Cláudio não queria. Cada um se comporta de um jeito. Há os que querem pessoas ao redor, e os que se afastam e fazem disso uma proteção. Até entendo. Tudo bem.

Saí de casa já aprontando uma música para que os passos se tornem mais fáceis no longo caminho de cada manhã. Trágico, mas extraordinário e previsível em meu playlist, já mando Construção de Chico Buarque tocar logo de cara a faixa nome do álbum. Penso na evolução da música, e no “e se acabou no chão feito um pacote flácido” para depois tímido e bêbado. Penso no ritmo que se remete a uma construção e da realidade que se comprova no dia de várias pessoas. O engraçado que gosto dessa música de um modo diferente quando escuto de manhã e a noite depois do trabalho. Principalmente quando há caminhos tortos depois do expediente. Bebo e soluço como se fosse realmente um náufrago e danço e gargalho ouvindo música. Sem conseguir fugir do trocadilho, todo esse ritmo me faz construir um caminho mais rápido pela manhã e fica melhor quando a linda Cordão amaceia a tensão com “Ninguém vai me segurar, ninguém há de me fechar, as portas do coração”, diferente da anterior essa já me identifico sem diferenças quanto a dia e noite.

E de tantas vezes assim, sigo o mesmo caminho todos os dias. Vira rotina. Chego a dar bom dia ao cão que fica sentadinho na porta de uma casa. Esperando alguém ou protegendo o seu espaço? Eu não sei, mas movimentando a cabeça ele vai acompanhando o meu passar. Sei que o dono deste cão sumiu. Pelo menos eu estou dizendo isso por não vê-lo mais. Era um senhor muito simpático, moreno de sol e de olhos claros. Sempre o cumprimentava. Talvez ele tenha morrido. Talvez ele tenha voltado há vida no corpo do cachorro e continua me cumprimentando e respondendo o meu bom dia.

Esperar o ônibus no mesmo ponto e horário é quase um djavu corriqueiro. O gordinho branquinho que todo desconjuntado com a camisa colocada pra dentro da calça pela avó, sempre vira a esquina em direção ao ponto, sinalizando desesperado para parar o ônibus; a senhora que começou a depositar fundo de garantia tarde demais e ainda está trabalhando, quando todas as amigas estão aposentadas e vão cedo à hidroginástica, enquanto ela está vestindo as calças da casa e trabalha para pelo menos sobrar um dinheiro para o cigarrinho e o bingo. E assim as mesmas pessoas saindo de casa no horário de todo santo dia e os carros que passam, imagino que também sejam os mesmos. Sento na frente de uma floricultura e espero uns dez, quinze minutos até o bendito chegar. Acendo um cigarro e chupo uma bala, uma e outra abelha vai aparecendo atrás do doce e sopro nelas a fumaça, me dou melhor nessa briga. Se tudo na vida fosse assim, um soprar no problema que ele vai embora. As abelhas fogem da minha fumaça e se juntam a outras quando o dono da floricultura vai chegando, abrindo mais uma vez as portas de seu estabelecimento e espertas já batem cabeça para entrar e sugar mais um pouco do néctar das flores.

As abelhas já se foram e encontraram o que é de direito dado pela natureza, mas logo vejo a garota que vem sugar minha paciência. Essa é do tipo que um soprar de fumaça não surte efeito para espanto. Vem e vira a esquina de salto. Numa manhã de silêncio há essa hora já é possível ouvir o bater do salto a metros. Reconheço. Ela vem e sem dar bom dia pergunta se esta bonita. Já explico a você que mulher burra não me atrai e ela em outras esperas de ônibus já havia me deixado inconformado em assuntos aleatórios, uma parcialidade que me deixava realmente bravo logo cedo. Agora eu procurava pouco assunto, nada específico sobre literatura, música, economia e muito menos política. E drogas? Quando tocamos nesse assunto numa dessas idas ela já chutou a minha paciência metendo o termo “fumando cocaína”. – Não – respondo a pergunta sobre a sua roupa sem a vontade de querer agradar. Ela já foi se explicando e tudo mais como se devesse. O ônibus chegou vazio dando a oportunidade de sentarmos juntos. Ela que já foi um desejo antigo, hoje, depois de descobrir seu intelecto irritante que atira palavras sem pensar, não é mais aquilo tudo. Começo o caminho já limitando os meus assuntos e ainda mais as respostas quando houvesse alguma pergunta a minha pessoa. Sabia que se desse corda eu perderia meu cochilo ou a leitura do meu livro. Pareço um tanto homossexual falando isso de um belo par de peitos, mas quando é uma pessoa que defende o aumento salarial dos políticos com unhas e dentes, fala que ser vegetariano é idiotice, toma sucrilhos de manhã e esquece de escovar os dentes, principalmente quando se usa aparelho. O meu lado é compreensível. Não dando muita atenção ela dorme e eu vou lendo e ouvindo música. O banco é flexível e ela até se deita. Melhor assim, dormiu. Fico entretido no livro Budapeste de Chico Buarque, me disperso da leitura quando reparo nas suas coxas, ao deitar sua saia passou a um bom tanto acima dos joelhos e ficou mais interessante. Ela ficava ali, muito melhor em silêncio. Dormindo. Calada. Só assim para atrair e não criar algum tipo de repudio. Mas não durou muito, no final da Rodovia Anchieta ela acordou e começou a falar, disparou vantagens de viagens já feitas pelo mundo, não deixando de puxar um assunto que levou ao namorado fortão e rico. Deixava bem claro que o namorado era um cara muito largo, forte e ciumento. Eu me mantinha praticamente em silêncio, só ouvindo asneiras elitistas bernardenses, enquanto ela jogava merda no ventilador para todos do ônibus ouvirem a sua rica história de vida. Eu imaginava que todos que estavam à volta escutando as vantagens da garota se perguntavam – Já que você é assim, então porque está num ônibus? E por favor, fale mais baixo caralho. Quero dormir – diriam juntos comigo por pensamento.

Sempre gostei de andar, nada muito rápido. Gosto do ritmo mais tranquilo. Vejo esse aspecto como um baiano que não entende porque os paulistas correm uma escada rolante se ela te leva até lá encima. Isso em mim, fica para as ruas, pois minha natureza é daqui e fico com vontade de dar um chute nas costas das pessoas que não percebem que o lado esquerdo da escada serve para fluir o trânsito. Há aqueles que não estão nem aí e ficam até debruçados enquanto existem pessoas com pressa enfileirando afim de fazer o mesmo que eu, chutar.

A estação de metrô fica bem próxima do prédio onde trabalho. Desço no Paraíso e gosto daquele lugar. Apesar da distância é fluxo de uma diversidade de pessoas bem mais interessantes que o ABC. É uma bagunça que gosto. São Paulo, eu te amo.

Tenho maiores responsabilidades que antes – começaria eu dizendo sobre o motivo que encontro para fumar logo cedo - Preciso de um escape para aliviar a minha tensão – diria para minha consciência ao sacar o maço. Cheguei a me render as desculpas e comecei a tragar e andar. No caminho chuto um maço de Marlboro Light amassado com o rótulo virado para baixo e a parte de trás alterada dizia - Cigarrillos trae dolor, enfermidad y muerte sufrida. Achei estranho esse verso colado, mais por ver que alguém se preocupou em lembrar disso. É uma lembrança menos sutil que o normal. Pode ter sido a esposa que cola no maço do marido ou mesmo no dela. A consciência é nossa amiga até certo ponto, depois temos que ter muletas para lembrá-la de algumas coisas.

Não era de se assustar, afinal, eu estava trabalhando ao lado do Hospital do Coração. Imagino que muitas pessoas estão com o fim da vida bem mais perto em algum quarto daquele prédio devido aos cigarrillos. O cúmulo é quando me pego fumando na calçada deste Hospital. É quase a mesma coisa que tomar umas cervejas na calçada do AA.

Sétimo andar. Sala 117. Hoje fez dois meses que estou aqui. Minhas costas já doem de ficar deitada. Tenho poucos momentos no dia que posso levantar, ainda com auxílio da enfermeira ou de um visitante. Logo eu que gosto tanto de me olhar no espelho, passar maquiagem e arrumar o cabelo. Estou ficando mais fraca, mas antes estar aqui para tentar ter mais uma chance a mais de viver e continuar me vendo no espelho, do que já ter ido para outro mundo. Além de não ver mais o meu reflexo, irei entristecer as pessoas que gosto. Não sei mais por onde correr, por isso fico aqui e aceito qualquer opinião dos médicos e uma boa conversa. Meu filho mesmo sendo muito ocupado saí do trabalho e passa aqui direto. Lindo, ele vem de social completo e as enfermeiras ficam de olho nele. Fui eu que fiz, falo também para elas que ele é meu, mas se quiserem, passo o telefone. Ainda quero vê-lo casado e me dando um neto. Mas a beleza estraga um pouco, por ter muitas mulheres a sua volta, não vive com uma que preste. Tem a péssima mania de escolher mulheres desequilibradas que não querem saber de casar e constituir família.

Deu-me muito trabalho, mas agora é a vez dele cuidar de mim. Quando ele chega, me ajuda a levantar e ir a janela. Ao menos daqui tenho uma bela vista da Avenida Paulista. Sou boba em achar que o melhor momento do dia é olhar as luzes da cidade, toda iluminada. Esses dias um pássaro tentou subir aqui em minha janela e começou a bicar tentando entrar, fiz de tudo para que isso não acontecesse, acenei para que ele tomasse outra direção. Mal sabe ele que tem em suas asas o poder da liberdade. Aprendi que é quando estamos no escuro que percebemos as coisas boas da vida. Espero sair daqui depois da próxima operação. Estou cansada desse teto e paredes brancas. Na comida eles até se esforçam, mas já enjoei.

Décimo segundo andar. Daqui da Redação tenho uma boa vista do Hospital do Coração. São dois conjuntos de prédios. Acredito que um seja só enfermaria. Vejo todas as janelas mas só percebo o movimento de um quarto. A janela, como os óculos do meu pai, escurece quando bate raios de sol, mas clareia e fica transparente depois do final do dia. Desse modo só à noite que consigo ver alguma coisa do ângulo que fica a minha janela. Vejo uma mulher num quarto, reparo que recebe visita de um cara todos os dias e que vai tomar um ar na janela. Mas faz um tempo que não reparo mais ninguém por lá. Espero que tenha dado tudo certo e que ela se reflita por aí.

domingo, 20 de março de 2011

Ela

Segundos de confusão entre a realidade e um sonho. O inimaginável surge, brota e cria coisas que não sabia ter o poder de fazer. A confusão é resultado. E quando vejo quem nunca havia visto? Intriga por não lembrar. Raiva. Resolvia algo particular naquela realidade criada pelo sono profundo e perturbado. Um apetite de fúria me tomava. Sei que a possessividade por algo me incomodava muito, chegando a me tornar irreconhecível. Tudo surgiu depois de uns copos de vodka e uma festa.

Só sei disso, não lembro - diria no dia seguinte.

Mesmo assim vai surgindo sempre um corte. Cena. Coisa rápida. Conto pra você, porque confio. Tento lembrar. Talvez fosse aquela filha da puta dos trejeitos que odeio, usando o olhar provocante, batendo o cigarro de forma vulgar que só ela mesma. Talvez fosse outra, mas não é difícil ser a mesma.

Gorda vagabunda! – eu gritava.

Até tentei me segurar e continuar gritando só por pensamento. Não aguentei, era mais forte. Toda indignação me tomava. Confusão era comigo, aprendi com meu pai. Assustava muitos que me olhavão, pois é difícil acreditar que eu poderia subir tanto no salto e fazer o tempo fechar.

Meu diafragma forçava para uma respiração profunda que acompanhava essa indignação pela Senhorita do Cigarrinho. Depois disso, foi só virar mais um gole de vodka pura e ver um gesto dela batendo as cinzas para avançar. Lembro de tapas e gritos. Cheguei a acertar um soco de mão cheia. E não é mentira, foi um bem dado. Conto isso com empolgação e certa alegria. Aconteceu naquele momento. Fiz tudo sozinha.

Pensei nisso durante a manhã. Não estava com remorso, culpa ou sentimento parecido a isso. Pra falar a verdade pensei muito em meu soco certeiro. Nada de puxão de cabelo. Havia de ser assim, estava preparada pelos pensamentos. Nisso tudo, algo me fez pensar que existe um prazer em brigar e sofrer. Sinto algo necessário que fica entre o chorar e a piada do bar. Talvez as coisas desse meio são uma distração para a vida normal.

No metrô, quem me vê pensa que sou brava. Crio e passo uma imagem que afasta. Isso pela maior parte do tempo. Caso você observe as pessoas, enquanto passa o tempo que nem eu, vai perceber que em um segundo vou sorrir e aprofundar a minha cova. Nesse segundo eu lembrei da noite passada, da vergonha que não tinha ao dançar aquela música alta no meio da festa.

Minha mãe disse uma vez e nunca vou esquecer - Vadia na cama, dama na sociedade. Não sei por que lembrei disto, só sei que organizo minha bolsa como ninguém. Ponho em ordem de tamanho. Livro grande, médio, agenda , guarda-chuva, carteira e a garrafa de água. Tudo em perfeita sincronia. Sem falar no bloco de anotações que ganhei no natal, acomodado muito bem entre o livro que aluguei na biblioteca, que esqueci de entregar antes de começar as férias, e o livro que ganhei no ano novo.

Quando fui pegar minha garrafa de água, abri e a colega desconhecida ao lado reconheceu a delicadeza da minha organização com uma esticada de pescoço. Chegando a esboçar um rápido elogio – Nossa, que organizada, tudo fica mais fácil.

Agora sei por que citei a minha mãe.

Sou dama da organização de meus objetos, mas minha cabeça não acompanha em outras áreas. Desorganizo de um relacionamento a uma conversa séria com facilidade. Não aprendo a ter controle ao chegar o fim de semana e aquela música alta me arrepiar e me excitar a beber toda a vodka da mesa. Graças a isso meus sorrisos surgem. Se tudo na minha vida fosse igual a minha mochila, seria chato, parado e cheio de dedos. Gosto do errado.

Não sou pedra, sou mais areia que você imagina. Mais areia movediça do que fofa e macia. Sem querer afundo muita gente comigo. Envolvo, puxo e me apego. Não te deixando sair sem perder o fôlego. Isso tem o lado bom, você sabe. Fico nervosa porque penso rápido, queria pensar mais devagar. Há dias que o pensar demais desconta e descarrega a tensão na minha perna. Vou batendo os pés no chão, sem parar. Cada batida um problema, uma emoção acontece. Cada vez mais rápido.

Por isso, numa quarta-feira de manhã, decidi cair da cama mais cedo em meio às férias que se prolongam. Interrompi meu sonho e criei o habitual mau humor matinal. Tudo isso para ir atrás de um psiquiatra que me abra alguma percepção diferente da que tenho e que seus caros honorários não sejam à toa. Que ao escutar uma voz diferente me faça aprender a dominar meus problemas.

Próxima estação. Levanto carregando uma mochila, preguiça e pensamentos.